segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Quente, mas frio

Começa, então, o frio. Parece-me bem. Verdade seja dita que depois de hoje me ver, a mim próprio, a dar 400 euros ao Sr. Carlos de Olhão na Àrvore das Patacas, já tudo me parece bem. É verdade, eu girei toda uma Àrvore das Patacas, sem medo, com muita confiança, que só assim se gira uma àrvore daquelas.
O frio aconchega o corpo. Faz-nos mais aconchegados a quem queremos aconchegar. Faz-nos querer aconchegar a pessoa paredes meias com o nosso coração,até estalar os ossos, e ainda assim insistir. Ontem comi castanhas no Chiado. Quentes, e de facto boas. Começa toda a gente a fumegar pela boca, a guardar os pescoços em lã e mais lã, até ficar só uma cara de frente para o mundo. Lareiras, um pouco por todo o país, começam a pedir madeira e mais madeira, tal é a fome de aquecer. As canecas enchem-se de muitos chás, dispostos a quase tudo para queimarem uma língua, que tão bem deve ser usada. Essa mesma língua, pede ao chá que este a queime. Que só assim se inicia o inverno no corpo.
Seis da tarde e já a noite se senta à mesa connosco. Anoitece cedo demais para quem gosta de luz. Anoitece cedo demais mesmo para quem a detesta. Anteontem comprei lenha, ontem comprei castanhas, e hoje, espero ansiosamente que a água ferva. A minha língua pernoita irrequieta.
Queimo-a?

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Ressaca

Está estreado. A casa estava cheia, mais do que como um ovo, bem mais. Estava nervoso, muito, confesso. Raramente o estou, mas sexta feira estava. Quando falta uma hora para começar, pensei que não era nada daquilo que eu queria. Queria a minha mãe, o meu sofá, estar debaixo da roupa da cama, tudo, tudo, menos ser actor. Os nervos da espera para entrar rouba anos de vida, e connosco a assistir a tudo. Mesmo. Sentimos o sistema nervoso a picar o ponto e o estômago a cimentar. Tudo. Pensamos que até partir um pé naquele momento era mais reconfortante do que despir, peça a peça, a alma, para 200 pessoas.
Ao atravessar as cada uma das pessoas no Jardim de Inverno, para chegar ao palco e dar inicío à peça, apercebi-me que não há privilégio maior do que ter olhos e peitos dispostos a pagarem para te ouvir. Não há. Um palco é de uma força impressionante. As luzes num palco mudam, a maneira como vêmos as coisas, muda. Mudamos também nós, torna-mo-nos ainda maiores. O palco põe uma gigante lupa sobre tudo o que nos dói ou sorri.
Hoje ainda ressaco, tal é o arrombo dessa lupa. E ouço Camané. Não há nada como a nossa casa. Nada.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Hoje, 23h30

É hoje. É nestas alturas que qualquer actor pensa "porquê?... com tanta profissão jeitosa..."
Não é medo. Não são nervos. É tudo. Um cocktail atestado de tudo o que contrai músculos e que assim os deixa. Pais, amigos, imprensa, pessoas que respeitamos, enfim, todos, de tudo um pouco, hoje, para verem "o que ele tanto andou a fazer no último mês e meio".
Acabo de tomar banho, ouço Maria João e Mário Laginha que de alguma maneira me tentam acalmar, mas em vão. Todo um texto da peça que fazia sentido na minha cabeça, hoje aparece com parágrafos trocados. Congestionado e com febre, que ajuda sempre um bocadinho, olho uma última vez para o texto. Tenho de ir, ainda há uma estrada para fazer e um carro para estacionar. Hoje às 23h30, estreia-se mais um medo. Hoje, às 23h30, cresci como actor.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

"Antes Eles Que Nós"



Estréia então dia 21 de Outubro. Apareçam.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Cartaz das Artes

Amanhã, Clã no Santiago Alquimista, e eu amarrado ao Teatro Municipal São Luiz.
Vão todos, que concertos destes não se perdem de ânimo leve. Vão e gritem-me o que acharam.
Novo cd de Clã ao Vivo... chora-se quando se sofre de tanto sofrer, ou quando nos sentimos tão bem que recorremos às lágrimas para nos ajudarem a estancar o sorriso parvo. Este cd equilibra-nos entre os dois. Agradeço-vos.
Também o meu bom amigo Pedro Ribeiro, que eu tanto respeito e admiro, estreou as suas "Conversas Ribeirinhas" na Sic Radical, de 3ª a 6ª, às 20h. Porque cada vez são menos os programas que nos merecem à frente da televisão, não deixem passar este.
Despeço-me assim de mais um Cartaz das Artes, até p´ra semana.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

É melhor ir dormir...

Regressei ontem do Porto. Lá, cruzei-me com o Manuel Luis Goucha.
Tive medo.
Falta então, uma semana e meia para a estréia da peça. A dor de estômago não me deixa mentir.
Tudo corre bem, menos o tempo. Esse corre bem demais. Um grande bem haja à Anabela Baldaque, que nos vai vestir, e investir, nesta peça. O cansaço começa a levar a melhor, ainda que devagar. Sei-vos dizer que nestes últimos dias dormi uma módica quantia de 7 horas. A certa altura cheguei a ver elefantes a dançarem em cima de lâmpadas de halogénio. Ou se calhar era só o sono. De qualquer das maneiras, tinham uma coreografia espectacular, as lâmpadas.
Durmo enquanto vos escrevo. Olho para a televisão e vejo o Cláudio Ramos a falar da roupa que não sei quem levava ao aniversário da Sic. Espero que seja ainda do sono.
Há de facto pessoas que mais valia Nosso Senhor levar. Outras que mais valia Nosso Senhor mostrar a porta do Trumps.
Esforço-me para dormir, mas é pior. Quanto mais se quer dormir, menos vontade nos dá.
Sou um fã da Tertúlia Côr-de-Rosa. Acho que pode dar idéias à Al-Qaeda.
Sonho com o Cláudio Ramos e o Daniel Nascimento a dançarem Forró em cima de uma coluna. Acho que fazem uma dupla espectacular, têm imensa presença.
É melhor ir dormir.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

É da família


Porque uma imagem vale mais do que mil sentimentos. Aqui fica, é sobrinho aqui do próprio que vos escreve, é lindo de morrer, e já anda.
Contra tudo e todos, mas anda.
1 ano, poucos dias, e um sorriso lindo depois, aqui está ele.
Ah leão!

sábado, 1 de outubro de 2005

Chama-se: Folga

Enfim, um dia de descanso. Os ensaios correm a passo apressado, com a estreia já a espreitar da janela 21 do mês de outubro. Aproveito para não fazer nada...e que bom que isso é. Regra quase geral, as pessoas ao fim de semana enchem-se de "tenho de lá ir" para segunda-feira dizerem a toda a gente o quanto "lá foram". Correm, gritam, esperneiam, passam cartões multibanco em lojas que as vão fazer chorar. Eu sento-me, e escrevo-"as".
Acompanho de longe as obras da minha casa, e penso que tanto cimento junto refazia, sem problemas, a cara do Ferro Rodrigues. Seria um orçamento diferente, isso sim.
Nunca imaginei que houvesse tanta variedade de sanita. Nem de torneiras. Nem de bidés. Palavra. Há lojas só de bidés e sanitas. Isso, só por si, é bonito. Hoje olho para uma sanita com muito mais respeito. Sei que ela teve de lutar para estar ali, eram muitas a querer o lugar. A minha sanita é feliz. Ontem trouxe-a como quem carrega um filho nos braços.
Ouço o empreiteiro cansar-me os ouvidos. Faço-lhe "mute", e vejo como está a fino que se está a tornar a casa. Tiro-o do "mute" e digo: Esta bancada queria-a com 1 metro e 10. "Então mas você não acha... (mute)"
Desconfiam muito de gostos diferentes. Tive de o convencer de tudo o que queria remodelar, para ele não amuar, e não pedir um tempo à nossa relação.
Cumprimento o colega dele, moldavo até ao passaporte. Ele fica a olhar para mim, não mexe.
Estico-lhe a mão. Ele não. Recolho a mão. Ele não.
No fim deste mês já lá devo morar, assim queira o Sr. Moldavo, o maneta.
Posto isto, carrego no ponto final, e estico-me, para apanhar mais aquele bocado de sol.

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Pela boa música

Há poucos músicos em Portugal (país da Europa), que me fazem vibrar. Não sou muito esquisito, mas no que toca a músicos, gosto que eles façam música.
Exigente.
Ouço Camané enquanto escrevo a frase "enquanto escrevo a frase", e apercebo-me o quanto é bom ouvir boa música. Há músicos e músicas que me dão raiva, de tão bonitas e bem compostas que são. Palavra.
Sérgio Godinho escreve o que quer como ninguém. Ou melhor que isso, se assim o quiser. Escreve, ponto.
Manuela Azevedo existe num palco, e fora dele, com o dobro do tamanho com que foi aconchegada no mundo.
Belle Chase Hotel (agora Quinteto Tati), Jorge Palma, Carlos do Carmo, António Variações.
Faltam muitos, bem sei. Mas sintam-se abraçados os bons.
Os maus também, mas com menos vontade.
Bom e mau gosto não se discute, definitivamente. Também o meu é duvidoso.
Comprei hoje um cd da Ana Malhoa. Arde que é uma coisinha parva.
Canta-se Português em Inglês, e não vejo especial problema nisso. Cantar Português em Português ainda custa.
Português bem cantado bate aos pontos o dialecto mais rico de qualquer país.
Hoje, sento-me no sofá e ouço música, daquela arquitectada em notas que nos entram bem para além dos ouvidos.
Hoje, sento-me no sofá e ouço, tão simplesmente, música.

Menino Tonecas


Alguém têm de dizer ao Menino Tonecas que com 50 anos já não devia falar à puto. Fica um nadinha seníl... O meu avô fez isso há muito tempo, e na semana a seguir andava a atirar máquinas de café contra um mocho, e a dizer que "ele sabia coisas demais".
A sério, só uma chamadinha ao Senhor Luis Aleluia...

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Só mais um link

Porque o que é bom merece ser visto, Ricky Gervais, um grande, grande senhor. Vejam os videos, vale a pena. Ou não façam nada. Fica a sugestão.
Cumprimentos.

sábado, 17 de setembro de 2005

Vai uma aposta?

Merda, esqueci-me de ir à festa dos 10 anos da Caras... o que é que vão pensar de mim?
"Acompanhámos a entrada de todo este hollywood à portuguesa", dizem agora, no fim da emissão. E eu aqui. Em casa. Até gente da Argentina veio, e eu, nada.
Eu, aqui, sozinho, a ouvir o cd da Dulce Pontes e a pensar quem lhe deu tanto murro para ela gritar assim. Pensava que gravar um cd em estúdio era mais pacífico.
Gosto de ir a festas sociais quando a Maya vai, porque mesmo que ela não diga em que lugar do ranking está o meu signo, pelo menos sei que estive perto de uma cabeça sem-abrigo.
Estar desempregado ou "aparecer" na televisão hoje sabe ao mesmo, há sempre dúvidas sobre o que pôr na ficha do médico onde pergunta:
a)Profissão__________
Deixei de ir ao médico.
Fazem muitas perguntas.
Fui lá para me queixar, se soubesse que era preciso responder a tanta coisa tinha alugado uma casa em Elvas e acampado perto dos Jerónimos. Não gosto é de colégios.
Enfim, gostos parvos, os meus.
Entristece-me a "televisão", não apenas porque sim. Mas porque dói-me ver tanta gente com talento desempregada. Actores, apresentadores, humoristas. Muitos, mesmo. Conheço-os, tenho o contacto deles. São sub-aproveitados. Somos pequenos demais para nos darmos a esses luxos tão grandes.
Deixem-se de merdas.
Ter mamas ou um cabelo bem tratado não é, nem nunca foi, sinal de talento.
Se calhar não moram na Quinta da Marinha.
Mas têm génio. Puro.
Não suportado por alicerces de açúcar.
Dói-me ver uma passerelle de futilidades e assistir impávido e sereno. Devia deixar passar e preocupar-me com outras coisas. Com esta dor de cabeça que não me larga há 2 dias, com a conta da EDP que ainda não paguei, com a falta de leite e manteiga que me acompanha.
Enfim, nada de novo.
Um dia havemos de perceber o que estamos a perder.
Vai uma aposta?

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Muito sono

Então foi assim: quarta-feira tocou o despertador, eram 7h da manhã. Fui a umas gravações, segui para o teatro para ensaiar, e deitei-me eram 3h da manhã.
Hoje, o mesmo despertador tocou, uma vez mais, às 7h da manhã. Uma vez mais fui a umas gravações, uma vez mais segui para o teatro, e uma vez mais são 3h da manhã.
Há 15 minutos fiz uma boa acção.
Vou agora buscar uma vassoura e uma pá, que os vidrinhos e os ponteiros ficaram espalhados pelo quarto.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Estrela da Tarde

A letra é de José Carlos Ary dos Santos, e a voz, emprestada por Carlos do Carmo.
Mais do que um poema a rasgar os limites do bonito, é muito, muito mais que isso. Faz parte do lote de músicas que me faz dar mais uma volta ao quarteirão antes de estacionar o carro, só para chegar ao fim com ela.
E reza assim:



Estrela da Tarde

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

domingo, 11 de setembro de 2005

A todos os condutores


Pensei, pensei e cheguei a uma conclusão, que a meu ver, parece justa.
Todos os carros, que circulem a menos de 100 km/h na faixa da esquerda de uma auto-estrada, deveriam, em jeito de automático, explodir. Perder-se-iam algumas vidas, é certo, mas é melhor assim.
A estupidez de alguém, que com duas faixas vazias à sua direita, insiste em lamber vagarosamente a da esquerda, é meritória de um belo dispositivo no banco de trás que detone automáticamente. Ninguem sofreria, nem o próprio condutor.
Minto, sofreriam um bocadinho. Uma bomba ainda faz dói dói.
Mas tem de ser assim, não me levem a mal, sou um mero mensageiro.
A ideia é simples e querida de dar beijinhos. Cada condutor, pela manhã, seria munido de um palestiniano, que estaria sentadinho no banco de trás, com uma mochila toda janota.
P.s.- Este senhor palestiniano é: bom moço, lavadinho, com uma camisa apertadinha até cima, para resguardar o peitinho de correntes de ar. Mas danado para a brincadeira.
Depois o processo seria limpinho e eficaz. O condutor, como sempre, metia uma abaixo e mudava para a faixa da esquerda e mantinha-se nela a 90 kilometros/mortíferos.
Em seguida escutaria um ligeiro "click" dentro do carro, olharia de imediato para o conta-quilómetros, e morreria a meio de um "oh cabrão guarda a mochila, ai cum car...! (PUUUUMMMMM)
Deus os guarde em descanso.
O Sr. palestiniano teria nas suas doces mãos uma camara de filmar, daquelas resistentes, assim tipo... resistentes, cuja cassete seria posteriormente aproveitada, para acompanhar aulas de condução e mostrar aos alunos o senhor Antunes a estoirar.
E também o Sr. Palestiniano a dizer adeus para a camera.
Outra solução, também baratucha e práctica, seria a de qualquer condutor que fosse obrigado a ultrapassar pela direita, ser subsidiado de uma caçadeira daquelas de matar patos, e alguns cartuchos. Ultrapassaria pela direita, mantinha a velocidade de cruzeiro do condutor à esquerda, e tinha direito a dois tiros. Um nos joelhos para desiquilibrar a velocidade e posteriormente num dos braços, só porque é giro.
O leitor deve estar a pensar "epá, que exagero! morrer? é preciso tanto!?"
Realmente não. Mas vai ter que ser.

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Pequeno conto infantil

Era uma vez, um menino que foi à caixa de correio,
E lá encontrou uma carta que dizia "EDP".
Abriu-a, olhou para a parcela que dizia "valor a pagar", e disse assim:
"Foda-se!!"


Fim.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Curiosidade

Ontem, numa conversa pós-ensaio num qualquer restaurante lisboeta, disseram-me: "sabes de que é que morrem a maior parte das girafas? Morrem no parto, porque quando caem para ter o filho, a queda é muito alta, e partem o pescoço."
Hoje em dia, ando com muito mais cuidado.

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Despertares

Acordo, e ligo automáticamente a televisão. Nela está a Maya, no Sic 10 Horas, a dizer que os signos não sei quê. Termina toda contente. "Ah, Fátima, não sabes tu o que é que eu te tenho para contar na Tertúlia Côr-de-Rosa!" Diz a Fátima que "não! ora diz lá!" Responde a Maya: "Ah pois! A Ruth Marlene, que o nosso público tanto adora, têm um novo namorado! O único senão... é que é dono de uma casa de Strip! Ah ah ah".
Riem-se. Dizem que há namorados melhores. Com certezas, que estas mulheres sabem. A facilidade com que se agarra numa revista e se fala, com ar diplomático, das vidas de toda a gente, repugna-me. Há pessoas cuja "profissão" é mandar postas de pescada sobre tudo o que aparece nas revistas. Eu chamo-lhe "desemprego".
Hoje em dia, vende-se o dizer mal por dizer. Dá audiências. O público gosta.
Enxovalhar alguém, em praça pública, sempre vendeu, sempre venderá. Mas quando se torna banal e forçado (sim, porque tem de haver forçosamente sobre o que falar), é só uma máquina para arquitectar audíências. E quando assim é, caro leitor, é só falta de bom gosto.
Irrita-nos a todos: sair do prédio e ter vizinhas (daquelas vestidas de preto, reformadas), a falarem umas com as outras sobre os barulhos que ouviram em nossa casa na noite passada, e a até que horas as visitas ficaram lá em casa, e se tinham piercings, se não tinham, e o raio que as parta ao meio. Isso, irrita-nos muito. Mas se essas velhas, estiverem num programa da manhã, e despedaçarem a vida do próximo... isso, já nos aconchega mais a alma. Já dá vontade de ir buscar umas bolachinhas de canela e ver alguém ser abalroado na tv.
Enfim, há programas, que mais valia Nosso Senhor levar.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Orçamentos

Hoje acordei às 9h da manhã. Palavra de honra que não sabia que haviam pessoas e bichos a essa hora da madrugada. Ainda assim, arrisquei. Objectivo: Orçamento para obras em casa, uma coisa sempre gostosa, essa dos pedreiros. Falo com o meu pai:
Eu-Olha que se me conhecerem por alguma razão, sobem os preços porque julgam que ganho fortunas.
Pai- Não te preocupes filho, é gente séria.
Eu- Então fazemos assim, hoje vou eu com o empreiteiro fazer orçamento, amanhã vais tu com outro, para ficarmos com uma idéia.
Pai- Tá bom. Queres ir almoçar?
Eu- Vamos.

De facto o homem era uma jóia de pessoa, muito simpático, até tinha passado a camisa a ferro, e tudo. Perguntei-lhe se teria a casa pronta em 2 meses. Que sim, que até antes disso. "Nem vai ter tempo de dizer uma piada, pá!" Ri-me. Por simpatia, só. Insistiu:"Sabe que eu tambem me farto de fazer rir os meus amigos, é cá com cada uma que eu invento!" Ri-me. Por vergonha alheia. Há essa necessidade de as pessoas acharem que têm de ser engraçadas perto de humoristas. Tornam-se camaleões da profissão do próximo. Quando estou com muçulmanos não me faço rebentar. Este senhor estoirava-se em 2 tempos. Mas antes dizia "sabe que eu tambem me farto de fazer explodir vizinhos meus, é cada esguicho de sangue!"
Enquanto via a casa não parava de dizer "isso é simples, é baratinho. trabalho com homens que sabem o que fazem, gente dura."
Despedi-me do senhor.
Enquanto me apertava a mão, disse: "Tem graça, julgava que era mais alto".
Respondi: "Tem graça, eu não".
Riu-se muito. "Só você pá!".
Fechei a porta, respirei fundo, e liguei ao meu pai.

Moral da história:

Orçamento com o pai- 11.000 Euros
Orçamento com o filho- 35.000 Euros

sábado, 3 de setembro de 2005

SOS Lisboa

Lisboa está infernal. Hoje demorei-"me" uma hora, do Campo Grande até ao Marquês de Pombal, às15h. Entenda-se que nem a pé se demora tanto.
A cidade começa a ficar muito pequena para tanta cidade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Descansem os olhos

Vi neste blog de um amigo e resolvi partilhar com vocês. Descansem lá os olhos, vão ver que vale a pena. Façam o favor de entrar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Orgãos, precisam-se

Nunca os meus intestinos se chatearam tanto comigo como hoje. Leite creme e sumo de laranja. Nunca, mas nunca em toda a vossa vida, comam leite creme quente e a seguir bebam sumo de laranja fresquinho. Prometam-me isso. Nunca. É de uma violência que só tinha visto semelhante num documentário sobre focas bébés, na Dois, há algum tempo. Os outros documentários da Dois sempre os achei com o fim muito repetitivo: "Bruno, anda prá cama".
Sempre ouvi dizer que suminho de laranja fazia bem. Os meus intestinos não. Há qualquer coisa de muito estúpido em querer Leite Creme quentinho e sumo de laranja fresquinho depois, bem sei. Mas ter orgãos do meu próprio corpo a decomporem-se por causa de um mal entendido, é duro. Sempre achei que os intestinos e o cérebro, tivessem uma espécie de Walkie Talkie para saberem um do outro. É no fundo, para isso que mantenho vivos todos os meus orgãos, para me avisarem quando acharem que os meus intestinos estão a instalar um simulador de Nagazaki, para PlayStation2. Fiquei triste, confesso. Julguei-os mais unidos entre eles. Mais alerta. Nem um fígado se deu ao trabalho de me dar um toquezinho. Nem um rim. Nada. Ficaram todos imóveis, a ver-me ingerir à bruta contentores de explosivos.
Deixei de confiar neles. Tou farto deles.
Havia desenhos animados em que os orgãos eram todos amiguinhos, lembram-se? Pois bem, são uns cabrões. E é bom que as crianças percebam isso desde novinhas, que a qualquer momento, quando pensarem que o xixi está a correr bem, um rim entra em combustão instantanea.
Agora como torradas e bebo chá.
E gemo.

Life Aquatic



Acabo de ver The Life Aquatic With Steve Zissou (Um peixe fora de água), e constato mais uma vez: O Bill Murray, é, de facto... grandioso.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Flash News

Começo hoje mais uma longa jornada. Ontem despedi-me por momentos do "Curto-Circuito". Vou estar o próximo mês ao serviço do Teatro Municipal São Luiz, que tanto gosto, e que tão bem me recebe. Ao longo deste mês espero poder contar convosco para "desabafar".
Em Outubro deixo-vos aqui novidades sobre o que ando a fazer ao certo.
Regresso pois, ao teatro.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Deadline: 4h Am


Há algo de extraordinariamente hipnótico no canal Odisseia às 4h da manhã. Tudo parece bonito a essa hora, quando já estamos enroscados na cama, de baba em riste. Um leopardo, esventrar um lince que corre desesperadamente numa qualquer paisagem moçambicana, é...lindo! Há uma certa hora da madrugada em que desligamos a nossa secção do controlo de qualidade. A minha é às 4h.
Bocados de plástico que nos dão esticões nos músculos, arrepanham os pelinhos todos, e nos dão ar de estarmos no ponto alto de um ataque de epilepsia, é... fofinho. O Chuck Norris é o maior, os macacos narigudos do Bornéu são uma jóia de macacos, e a Dulce Pontes têm uma cara. Tudo na nossa cabeça encaixa ás 1000 e muitas maravilhas.
Durante todo o dia confesso que estou-me nas tintas para a tribo Uélélé, oriunda do Quénia. Mas às 4h da manhã, eu era menino para me meter num avião (ou num Zepelin se fosse preciso) , ir ter com o chefe da tribo e dizer "Mas você tá parvo? Já viu que tem 50 filhos a jantar serradura com arroz, e anda-me com os tomatinhos ao relento? E não há um "Raid" para afastar os besouros desta palhota? Vá, isso arrumadinho dentro dessa cueca de bambú."
Mais uma vez digo, se fosse às 4 da tarde, o Sr Chefe da Tribo até podia dar com os tomatinhos no queixo dos filhos, eu não mexia uma palha. A partir das 4h é que abro o meu escritório de Embaixador da Boa Vontade. Sou a Catarina Furtado dos pobrezinhos.
Hoje, são 4h17, e parto para o Zaire. Alguém têm de dizer àquela mulher que um soutien lhe poupa hematomas nos joelhos.

sábado, 27 de agosto de 2005

Fumar mata



De facto mata. Mas um camião em sentido contrário na IC19 também, e não leva nenhum autocolante igual na grelha da frente. Percebeu-se agora, depois dos quilómetros e quilómetros de auto-estrada que os fumadores foram calcando nos pulmões, que, epá... mata. Não que antes de anunciarem nos maços não matasse. Mas achámos que era mais giro só revelar a surpresa agora. Antes morriam um bocado à toa, agora morrem com uma explicação da tabaqueira. parece-me querido. Mas mata, e é bom que assim seja. Até me deixa de certa forma aliviado. Somos muitos, a verdade é essa. E cada um de nós existe muito. Logo, nada faz mais sentido. Nem todos fumam, o que me deixa descansado sobre o paradeiro do mundo. Não há nada mais aborrecido do que morrer de perfeita saúde, durante uma sessão de cardio-fitness. É até, se me permitem, motivo de chacota. Se apanhasse alguém a morrer dessa forma, faria questão de durante o funeral, me fazer munir de um microfone e um amplificador de médio tamanho, e insultar a senhora Augusta que morreu na passadeira do ginásio. É que é parva, a mulher. São pessoas que não têm o minímo sentido de morte. Pessoas estúpidas irritam-me, mas pessoas que nem sequer sabem morrer, dão-me vontade de estrear os sapatos na boca delas, com jeitinho. Morrer num jogging de sábado de manhã está ainda num patamar ridículo, e também constrangedor. Ninguém quer ser encontrado, esticado no circuito de manutenção do Estádio Nacional, com um fato de treino novo, ainda com os vincos de estar dobrado há meses, com um phones nos ouvidos (a ouvir provavelmente um qualquer cantor, também ele saudável), e com um coração em coma profundo. Nem a andar de canoa, nem a fazer amor, nem na secção de legumes de um hipermercado. Todos estes panoramas disponíveis para uma morte, são, em ultima análise, absurdos. A morrer, que seja coberto de embalagens de fast-food, com um cigarro meio apagado no canto da boca, com duas linhas de cocaína prontas na mesa de vidro, e a ver os Mini Malucos do Riso. Assim, morre-se com dignidade, na plena certeza que a primeira pessoa que o encontrar dirá: "Eu bem lhe disse que a televisão não estava para brincadeiras".

P.s.- Este SG Ventil estava óptimo.

Nuvens arquitectadas
















Gosto de nuvens arquitectadas.
Fim de tarde em Cabo Verde. Ficará melhor numa foto o lado turistíco? Ou o país como ele é? O turismo tem essa mais valia de apagar o que suja um país. Aconselho então, a todos os habitantes de um país, serem turistas do mesmo. Só têm a ganhar, vão ver. Em baixo, o mundo do turista, em cima, o mundo real.



Um copy paste

"Ainda não existe sitio em que me sinta tão invadido por esta cidade, como no Castelo. Estranha esta relação entre Lisboa e o seu Castelo, se hoje serve para atrair turistas, em tempos já serviu para nos proteger deles" Frase de que gosto, de um bom amigo.

Dói"s"-me

Dói-me. Dói-me muito. E não sei onde. Dói-me quando olho para ti, quando te vejo já ao longe, de cigarro encarcerado entre os teus dedos tão monstruosamente pequeninos. Dói-me saber que só te volto a ver quando já for tarde, e quando a dor se cansar de tanto me cansar. Tenho as mãos suadas e o coração a transpirar de tanto dar voltas e revira-voltas.
Dava tudo para saber estancar o palmo e meio de rasgo que me fazes na carne, não para o fazer, mas só para saber como actuar em caso de extrema urgência, que de urgência já eu vivo.
Dói-me muito, mas não sei onde. Se agora mesmo entrasse nas portas cansadas de um qualquer hospital, ficaria dia e meio para explicar onde e o que me dói. E ainda assim, dia e meio depois, estaria exactamente no mesmo ponto da conversa. Estaria de frente para uma bata branca, curvado de dores, de soro a violar-me o braço e o sangue, e de coração semi-risonho, como uma criança que faz das suas e olha para o lado para que ninguém a veja. "Juro que me dói senhor doutor, juro-lhe." De que vale explicar uma dor a quem nunca a sentiu?
A dor que me causas passa os limites de cinco países juntos.
Apetece-me beber-te a conta-gotas.
Dói-me. Dói-me muito. E quando me disseres onde, vai doer-me muito mais.

Mente sem abrigo

Roubei esta imagem na Rua São Sebastião da Pedreira porque... tinha a máquina fotográfica comigo. A verdade é essa. A personagem principal era um qualquer sem abrigo (a falta de abrigo rouba-lhes ainda o nome), o "jornal" era o 24 Horas, e a mesa de operações um contentor do lixo. Nos tempos que correm, poder-me-iam dizer que este mesmo contentor era uma redacção de um qualquer jornal e eu acreditaria, sem demoras. Este mesmo sem abrigo, analisando assim em close up, não deixa de ser um qualquer leitor. Quem sabe o mesmo que lê estas linhas. Este sem abrigo, que tão gentilmente se debruça sobre os restos mortais de tanta e tanta comida, pode ser, num close up ainda mais apertado, você. O que o/nos separa dele não poderá ser assim tanto. Por dentro, caro leitor que me acompanha, sou muitas vezes o homem que se deixa fotografar nesta imagem. Por dentro, numa qualquer escada que conduz às àguas furtadas da cabeça, sou assim. Preto e branco, sujo, cansado, mas de mente ocupada, e nunca, mas nunca a ler o 24 horas. O preto e branco não é um puro acaso da foto. A foto, caro leitor, está na realidade a cores. A preto e branco, vê-a quem fechou as cortinas da mente. A preto e branco, vê-a quem já não se vê a cores.

sexta-feira, 26 de agosto de 2005

Boas Vindas

De facto o corpo está cansado. E toda uma mente dormente. Ainda assim, presente. De hoje em diante (sabe deus que diante), deixarei aqui tudo o que me parecer interessante deixar. Problema: Só acho interessantes coisas absolutamente desinteressantes... um risco portanto. Sabado, 00h08 é então o inicio daquilo que espero ser a primeira de muitas mensagens e desabafos que me assolam a tal mente dormente. Deixo-vos então. Regressem, prometo que será tão desinteressante como este primeiro "post". ou ainda pior. mais desinteressante que as nossas vidas não será. Isto, meus caros leitores, é uma promessa.