Bem sei que estou em falta. Já não escrevo há uns dias, mas as férias fora do país falaram mais alto. Temperatura? -2 graus centígrados. Mas soube bem. Muito bem. Se pudesse passava metade do ano a trabalhar para viajar na outra metade. Mas parece que as coisas não são bem assim. E confesso que foi das vezes que melhor me soube voltar a Portugal, e ver o dia de espantoso que estava. Falamos falamos, mas temos um país do caraças. Essa é que é essa.
Novamente a minha empregada. Novamente arte. Desta feita num lavatório de casa-de-banho. Quanto a mim uma obra difícil de entender mas que contém uma força dramática extraordinária. A força do shampoo contra a frieza da louça sanitária. O desespero do desencontro com a banheira. E acima de tudo as costas voltadas do Garnier Ultra Suave e do Pantene. O que os terá separado? E o que tenta ver o terceiro Pantene Pro V que espreita no meio dos dois? A torneira? Ou está a fraquejar de ter os outros em cima do peito? A profundeza da dúvida. A frieza das relações humanas, levada a cena por três shampoos, que no fundo podiam ser qualquer um de nós. Essa é que é essa. Ainda não aprecei. Apenas porque sei que nenhum dinheiro do mundo paga arte deste calibre.
Chegou-me há poucos dias via Amazon. Andava ansioso por ver este documentário extraordinário que retrata a coisa mais simples e poética que se pode retratar. Um homem a cumprir um sonho de vida. Philippe Petit tinha um objectivo na vida que não é propriamente de fácil acesso: Atravessar as torres gémeas através de um cabo de aço. A pé. Sem cabo nenhum de segurança. Só ele, um cabo de aço que ia de uma vida a outra, e o desejo de passear no tecto do mundo. E assim foi. No dia sete de agosto de mil novecentos e setenta e quatro andou, ajoelhou-se, deitou-se e voltou a caminhar durante uma hora entre as torres gémeas, depois de ter planeado tudo ao pormenor juntamente com os amigos que acreditaram que o impossível era possível. Foi depois preso e submetido a avaliações psicológicas. E não tinha perdido nada. Tinha ganho mais do que aquilo que se possa alguma vez imaginar. Está nomeado para o Óscar de melhor documentário. Mas já venceu o que tinha para vencer. O sonho.
Vasco Baptista Marques deu uma bola preta a "Slumdog Millionaire" no Expresso. Nota miserável, portanto. Diz ele que o filme "consolida a "pornografia da pobreza" que nos vende a miséria como um espectáculo de consumo rápido". Luís Miguel Oliveira no "Público" diz sobre a visão do realizador da India: "Danny Boyle não conseguiu sentir mais do que o cheiro a merda. Fino.
Só uma coisinha: Senhor Vasco e senhor Luís, juntem-se numa cave a resmungar com o que vos impede de ter vida sexual e deixem-se de merdas. Já percebemos que sabem escrever português e fazer comparações. Mas a vossa "profissão" exige um bocadinho mais do que frases de português bonito. Deixem o resto para quem quer e sabe fazer mais do que desenhar bolas pretas em papel e dizer palavrões da quarta classe. Ou gostam ou não gostam, estão no vosso direito. Mais do que isso já é masturbação intelectual. E a arrogância e altivez com que vomitam críticas é que vos faz pequeninos, e na minha modesta opinião, feios. (A parte do "feios" é só uma opinião parvinha, para não me afastar do estilo destes dois queridos) Para se ser agressivo, tem de se saber escrever e opinar muito bem. Não é claramente o caso. Ser crítico de cinema, salvo raras excepções, só obedece a uma regra básica: Dizer mal daquilo que está em alta. Há qualquer coisa de intelectual em contradizer as massas. O pior é quando se contradiz com disparates de algibeira. Perdoem-me o tom, mas é claramente uma demonstração de pequeno poder. E isso põe-me do avesso. E sim, foi dos melhores filmes que vi nos últimos tempos. Mas nada que me deixe tão ansioso como ver um filme escrito e realizado a quatro mãos por Vasco Baptista Marques e Luís Miguel Oliveira. Eu e quem deu a "Slumdog Millionaire" sete BAFTA´S e dez nomeações para os Óscares. Para aprendermos todos um bocadinho mais sobre cinema.
Pois bem, mudei a rotina. Prometia-me há já uns anos, e falhava. Até que os dedos pediram, e assim foi: Estou a ter aulas de piano. Tinha esse sonho, eis-me a fazer por ele. Há qualquer coisa no som deste instrumento que vai directamente a sítios que não sabemos apontar. Não é coisa simples, para os dedos e para o cérebro. Estou ainda na fase de aprender a ler música, e enquanto experimento tocar uma ou outra coisa percebo que traduzir para o cérebro que as duas mãos devem fazer coisas diferentes é um dos primeiros e mais difíceis passos. Mas assim é melhor, se fosse fácil cansava mais. Já começo a perceber umas coisas, por força do professor extraordinário que me está a acompanhar. Deve ser penoso para quem toca tão bem como ele ver duas mãos de cimento em cima das teclas dele. Especialmente porque teve anos a aprender com a Maria João Pires. Deve estar orgulhoso do salto que a carreira dele deu. Orgulhosíssimo. Estou contente comigo. Terça feira às onze horas lá terei nova aula. Até lá tenho trabalhos de casa para fazer.
Agora só falta um pianinho aqui em casa. Porque praticar na mesa é estranho. E não tem definitivamente o mesmo som.
Já estou atrasado para um compromisso, mas sinto-me obrigado a deixar isto bem claro: A saga da Maya com a sua operação ao peito é das coisas mais nojentas que vi até hoje nas revistas. É prostituição mediática. E não vou fazer piadas, nem gozar com a situação, nem nada que o valha. Uma pessoa que deixa que a fotografem numa operação ao peito (a troco de alguma coisa certamente, porque não estou a ver que seja a custo zero), que no carro à saída do hospital alarga a camisola para mostrar aos fotógrafos os adesivos colados ao peito, e que depois espera credibilidade em qualquer meio que seja, é uma pessoa extraordinária. Dantes ainda tinha piada falar sobre estes assuntos. Infelizmente hoje é tudo demasiado reles para sequer ser risível. Toda a gente come, digere e no dia a seguir não se lembra. E eu também deveria ser assim. Mas fica-me a trabalhar no estômago mais do que eu queria.
Epá...que coisa estranha é esta que está a cair no chão e que eu ainda não tinha visto nos últimos dias? Não estou a achar piada nenhuma a isto. É assim, como se fosse água. Acho mesmo que é água. Ah, espera lá, afinal é chuva. Ufa, quando uma pessoa não está habituada assusta. Agora vou ver onde está o guarda-chuva que tem uma vareta dobrada. Não me lixem, guarda-chuva como deve de ser tem sempre uma vareta ou duas a precisar de gesso. E vou aproveitar e marcar uma reunião com o São Pedro para lhe explicar que ele pode brincar com a pilinha dois ou três dias e deixar a rega para mais tarde. É muito poder, e isso está-lhe a subir à cabeça. Tristeza.
Se o mundo tivesse de acabar, teria sido ontem. O vento teria levado as pessoas e os animais. Ficavam as casas e as estradas para contar. Mas ao que parece ficamos cá mais uns tempos. Anos ou meses, ainda está por decidir.
Passei dos melhores aniversários de que tenho memória, com a família, a lareira, boa comida, boa bebida, e a certeza de que é isto que fica. Anos mais tarde são estes momentos que resistem, agrafados ao peito com uma nota a dizer: "Valeu a pena". Desde há muito tempo que insisto em não fazer as clássicas jantaradas de anos. Há qualquer coisa nos aniversários que me deprime, coisa essa que ainda não consegui pôr em papel. Não sei se é o bolo, se são as velas, se foi alguma coisa que sobrou de quando era mais novo e que alguma borracha se encarregou de apagar. Mas ontem voltou a ser especial. Vi o meu pai e a minha mãe juntos no meu aniversário muitos anos depois. Felizes, e orgulhosos de mim. E eu feliz, e orgulhoso deles, e do que vive dentro deles. Foi um almoço que começou à uma da tarde, e que foi acabando às sete. Mas que para mim só vai acabar quando acontecer outro melhor. Para já tenho vinte e sete anos, e todos eles me souberam bem. Venha o próximo.
Para terminar, comprei anteontem um dvd do Chico Buarque. E só porque sim, e porque sou piroso, vejo este vídeo do Chico e do Jobim vezes sem conta. Primeiro pela música. Depois pelo olhar durante toda a música do Jobim para o Chico Buarque, de carinho e admiração. Eu disse que era piroso. Mas destes já não se fazem mais.
Se eu pedir uma pizza com pepperoni, e para entrada um pão de alho com pepperoni estou a ser repetitivo ou até pode ser uma coisa normal? É que a verdade é que a fome é tanta que peço sempre tudo à bruta e passadas duas semanas a metade de pizza que sobrar vai estar a andar sozinha pela casa. Bem sei que devia dar aos pobrezinhos. E bem sei que em África se passa uma fominha que nem sequer desconfiamos. Mas tenho sempre a esperança de no dia a seguir ela estar quente e estaladiça outra vez. Nunca aconteceu, mas também nunca aconteceu ver imagens da Sic Notícias com crianças em África a comer pizza com pepperoni. E nisso estamos quites.
Sair à noite em Lisboa com chuva, vento e frio é quase tão agradável como espetar um prego enferrujado nas têmporas. E depois raspar o prego nos dentes para ter a certeza que o tétano não se perde pelo caminho. Chegado do jantar dos "Contemporâneos" tenho a dizer mais uma vez o seguinte: trabalho com uma equipa do caraças. Todos. Jantámos e bebemos o que tínhamos a jantar e a beber, e no fim fomos presenteados com um karaoke que parecia a guerra civil de Espanha, mas com mais feridos. Nunca percebi o fenómeno karaoke, mas também nunca me dediquei muito à matéria. Sei apenas que há pessoas que quando estão em cima do palco cantam para a maquineta como se o mundo fosse acabar amanhã à hora do almoço. Quando eu digo cantam, leia-se roncam. Tirei fotografias com fãs e um deles diz-me: "Posso tirar uma fotografia contigo?" "Claro que sim" "Fixe. Não tenho é máquina. Arranjas alguma?"
É um tipo de raciocínio que não está ao alcance de qualquer um. E é claramente o tipo de abordagem que merece o respeito de qualquer um.
Quando se está mais ou menos de férias, acontece um problema que não era suposto acontecer: Não saber o que fazer. Ou pior, quer-se fazer tudo. Sei dizer que tenho pelo menos sete coisas para fazer, mas o primeiro dilema de todos é não saber por qual delas é que hei-de começar. É uma espécie de peso na consciência de escolher a errada e deixar as outras seis desapontadas. Como tal, tenho-me dedicado a ficar paradinho, a organizar-me mentalmente, mas com muita calma, para não estragar o conceito de férias. Neste momento estou a organizar cerca de oito mil fotos que estão numa pasta no desktop do computador e que tem o nome de "fotos". Pura imaginação ao criar uma pasta. Ora, oito mil fotos não se organizam assim do pé para a mão. Portanto vou-me entretendo com uma tarefa que não fazia parte das sete, mas que tinha de ser feita algures antes de morrer para a minha família não ficar na igreja a discutir quem fica com essa deliciosa fatia da partilha. Já consegui organizar quinhentas numa pasta que criei com o sugestivo nome de "trabalho", curiosamente para fotos de... exacto, trabalho. Agora uma dúvida que deixo a todos os seguidores deste blog que não tem qualquer espécie de vida: Onde arrumar fotos que tirei a coisas tais como: sinais de trânsito, nuvens, árvores, casas velhas, e outras que tal? Não é fácil. Queria ver o Obama a organizar-me a pastinha das fotos, era o organizavas.
Hoje, voltei a ter internet como deve de ser. Sim, andava com problemas na internet, e como viram até me controlei bastante bem porque não vos disse nada. Tudo em ordem. Graças à Netcabo (sim, quando corre bem também há que o dizer), mas acima de tudo graças à paciência do Pedro Aniceto que percebe mais de Mac´s do que eu percebo de andar a pé. Aproveitámos e ainda vimos os três a tomada de posse de Barack Obama: eu, o Pedro e o técnico da Netcabo, que nos confidenciou que tinha a irmã em Washington, lá no meio da multidão. Um bonito trio.
Agora sim, posso usar e abusar da coisa linda que o Pai Natal me deu, um Pai Natal que curiosamente dorme comigo.
É lindo. E só ainda não tive relações mais intimas com ele porque dá choque.
Há uma coisinha chamada "Twitter" que o senhor Markl me mostrou e que agora me deu para aquilo. Basicamente é uma espécie de blog em tempo real. Escrevemos uma mensagem onde quer que estejamos, via Iphone, e nesse mesmo instante há reacções ao que se escreve. Quem me quiser encontrar no Twitter é só adicionar CORPODORMENTE, e seguir as parvoíces que vou semeando pelo mundo. Aqui do lado direito debaixo dos "links" também podem acompanhar essas pequenas pérolas literárias. Enfim, é o que dá estar de "mini-férias".
O rabo que aparece na fotocopiadora no sketch dos "Contemporâneos" sobre o primeiro dia do Barack Obama não é meu. Era importante esclarecer isto. Ainda tenho um rabo digno, não é nada daquilo que para lá se vê.
Esclarecido isto, vou então dar festinhas no meu rabo inconformado.
Já podem ver o programa de ontem dos "Contemporâneos" aqui. Eis alguns que gostei particularmente, por diferentes motivos que nada tem a ver com qualidade. Este gostei pelo simples motivo de quando eu no fim do sketch rebento o ovo na mão, há uma parte considerável de gema que sai disparada para o olho direito do Eduardo e fica pendurada nas pestanas, juntamente com alguns bocadinhos de casca. É aos três minutos e trinta e sete segundos, e não consigo parar de ver em loop. No fundo trata-se de um tipo de humor elaborado que aprecio:
e
Este último deu-me especial prazer porque o meu único objectivo no sketch era fazer sons estranhissímos que conseguissem desmanchar o Manel e o Eduardo. Consegui isso em alguns takes, com sons que nem eu sabia que era capaz de fazer. E não sou.
Amanhã é o último dia de gravações da segunda série dos "Contemporâneos". Paramos um tempinho, e depois voltamos com a terceira. Confesso que me vai saber bem. Até aproveito e confesso mais: vai-me saber muito bem. A Maria diz que fazer um programa de humor é como estar em "guerra". Não no sentido de matar pessoas da equipa com carabinas só porque sim. Mas porque se está sempre alerta, mesmo quando pensamos que estamos relaxados. E tem toda a razão. Descansa-se o corpo mas a cabeça está sempre lá, na edição, no texto, na representação, em tudo. E a equipa toda começa a acusar um cansaço que mostra que não podia haver melhor altura para parar, descansar, e voltar com baterias recarregadas para a terceira série. Acima de tudo vou ter saudades de insultar gratuítamente o Manuel Marques. Ou pura e simplesmente de o magoar fisicamente, mas com ciência. Hoje encontrei-o na sala do guarda roupa a dormir no chão. Estive a três segundos de lhe aviar um biqueiro nos rins. É ou não é tentador?